Era inverno, mas estávamos na praia. Salvador, Bahia. Eu caminhava com meu pai na beira do mar, por volta das dez da manhã do dia do meu aniversário de dezesseis anos. Fitei a linha distante do limite azul e indefinido entre o oceano e o céu. Ia chamar o meu pai, que andava um pouco adiante, para comentar a beleza do dia quando senti uma agulhada intensa no pé esquerdo. Olhei rapidamente para a região que doía, não havia nada. Gritei de dor e chamei o meu pai. Ele não me ouviu.
A dor se espalhou rapidamente, apesar da ausência de qualquer evidência visual sobre a origem dessa sensação. Meu instinto foi o de correr para o chuveiro que ficava perto de um dos quiosques e ali encontrar alívio para a dor com a água corrente. Apressei-me para chegar ao meu destino, desviando com dificuldade de guarda-chuvas, toalhas e castelinhos de areia de outros turistas. Abri as torneiras com pressa e o contato da água com a minha pele foi, de início, um alívio. Aos poucos, contudo, a aparência do meu pé, até então normal, começou a mudar.
Manchas vermelhas dispersas, ligeiramente salientes, apareceram em torno do calcanhar e do peito do pé. Assustados, meus pais apareceram e me interpelaram, aflitos, sobre a causa daquelas queimaduras. Respondi com uma interjeição de dor, quando o alívio momentâneo causado pela água do chuveiro foi substituído pelo ressurgimento, ainda mais vigoroso, do ardor inicial. Agora com o agravante da imagem, nada reconfortante, do meu pé crivado de manchas rubras.
Um vendedor de cocos se aproximou e olhou para mim e para as queimaduras, acenando a cabeça com uma expressão de compreensão. “Isso aí é água-viva”, diagnosticou. Respondi com um sorriso incrédulo. “Mas eu estava bem na beirinha da água, e não tinha nada nos meus pés quando senti”, expliquei. O homem deu de ombros, dizendo que aquilo era a aparência típica desse tipo de ferimento. “E tem mais, você não devia ter molhado o pé. Piora se você põe água”.
Perguntamos qual seria o melhor método então. O vendedor nos indicou uma farmácia próxima que vendia uma determinada pomada. Dentro de alguns minutos, meu pai voltava com o medicamento. A dor ia passando gradativamente, mas as manchas vermelhas ganhavam um aspecto mais e mais desagradável.
A queimadura tinha sido, afinal, o meu irônico presente de aniversário. Mais que a dor em si, eram as marcas no meu pé que me impressionavam. Não acredito em signos do zodíaco, mas não pude deixar de fazer a associação entre o fato de eu pertencer a um “signo aquático”, Câncer, e de ter sido tocada por uma água-viva justamente no dia em que nasci. O mais insólito é que essa ocorrência ficou gravada na minha memória não como um episódio negativo. Pelo contrário. Agora posso dizer aos meus conhecidos e amigos que já fui picada por uma água-viva, mas com o benefício de não ter havido conseqüências graves. Trata-se de uma experiência a mais que posso dizer que já tive, uma a mais que posso contar para quem me conhece, uma a mais que faz parte de quem eu sou - ou de quem me tornei, correndo o perigo que é viver.
(Claudia Gasparini)
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