Num belo fim de tarde, quando eu ainda era uma pequerrucha menina, resolvi andar de patinete pelas ruas do meu bairro. Como eu era uma criança, tinha que pedir permissão ao meu pai para andar de patinete, e como um bom contrariador de filhos ele me disse "Não". Não não não e não. Eu insisti muitas vezes e ele sempre convicto da sua negativa resposta. Acho que não faz sentido nenhum, porque eu apenas ia andar de patinete e eu não via mal algum nisso, mas. Ele não me deixou andar e então falei que eu ia, mesmo ele não deixando, como boa teimosa que eu era ( ou sou ainda). Rebelde sem causa, peguei meu lindo patinete com rodinhas de gel e a lixa escrita NO VACA ( que eu adorava tanto) e fui para as ruas ser feliz.
Deslizava por entre o asfalto, linda e contente, um tanto com a consciência pesada, mas o que importava? Nada de mal me aconteceria. Dois, três quarteirões até chegar a uma leve descida. Virei a rua e um carro vinha na minha direção oposta. Eis que do nada, como todas as coisas acontecem, o carro quase me pegou e eu fiz um desvio malandro até me esborrachar com o joelho no chão. Lindamente caída no asfalto. Levantei depressa. O joelho todo esfolado.
Voltei mancando pra casa, toda desinchavida, entrei correndo, escondida do meu pai, pra tomar banho e esconder o machucado. Eu mancava de dor. Tomei banho e enfiei um algodão no machucado ( sim, eu fiz isso) e ele me perguntou o que tinha acontecido, eu falei que não era nada e sorria e acenava. O algodão grudou no meu machucado e não havia o que tirasse no outro dia. Fiquei umas duas semanas com a ferida aberta. Não lembro exactamente o que ele havia me falado depois, mas sempre que olho meu joelho, que guarda alguns restos mortais desse dia, lembro do meu pai e da minha desobediência, e rio um pouco por essas coisas.
Pois é, não só praga de mãe, mas como de pai, também pega.
Cássia Oliveira
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